Para acabar de vez<br>com a banca portuguesa?
Há uns anos, não muitos, Jorge Leitão Ramos, crítico de televisão sempre em falta além de crítico de cinema, traduziu um livro de Woody Allen, «Getting even», e deu um feliz título à edição portuguesa: «Para acabar de vez com a cultura». Na passada segunda-feira, ao assistir à emissão do «Prós e Contras», terá havido quem tenha pensado que título adequado para aquele programa teria sido «Para acabar de vez com a banca portuguesa». Para justificar essa eventual reflexão bastaria o título que a emissão trazia, nada menos que «Os portugueses podem confiar nos bancos?». Sabendo-se que a actividade bancária precisa tanto de beneficiar de um clima de confiança como os peixinhos precisam de água, claramente se entende que a dúvida desde logo contida no título implicava o risco de turvar drasticamente o ambiente. A sua escolha parece ter sido, pois, uma escolha pelo menos audaciosa. Estando excluída a possibilidade de ter sido feita por distracção, ficará a generalidade dos cidadãos telespectadores, e mais ainda a dos clientes dos bancos, a reflectirem, inquietos, acerca do que farão com as suas poupanças quando poupanças haja. Como motivo de eventual insegurança já lhes bastaria o desfile de escândalos, palavra que aqui se usa para evitar a utilização de mais agreste termo, que tristemente tem caracterizado o percurso da banca portuguesa nos últimos anos. Que tenha vindo agora um programa da operadora estatal de TV, e não um programa menor, afixar em título uma dúvida fundamentalíssima terá sido caso para que o depositante se interrogue: que farei com o meu dinheiro? Na expectativa, talvez, de que o próprio programa lhe desse resposta.
O tempo dos colchões?
Não deu, o programa não lhe deu resposta pelo menos no sentido da tranquilização, talvez bem antes pelo contrário. Não decerto por escassez de competências: adaptando à circunstância uma fórmula popular, poder-se-á dizer que ali, naquele palco onde decorria a conversa, só sábios eram cinco além de Fátima Campos Ferreira. O que aconteceu, porém, é que foram ali ditas acerca dos bancos portugueses coisas tendencialmente propiciadoras das mais vivas preocupações e, por isso mesmo, diametralmente opostas ao tal clima de confiança de que a banca precisa para sobreviver saudavelmente. Chegou a coisa ao ponto de em mais de um momento se poder supor que o objectivo último do programa seria o estímulo ao negócio de venda de colchões, pois a mais eficaz solução para a defesa de poupanças seria a tradicional guarda nos colchões domésticos. Da plateia, e ao contrário do que é de regra no «Prós e Contras», não veio nenhuma intervenção, mas em dada altura alguém no palco lembrou, enfim!, provavelmente a propósito da situação do chamado Banco Novo, a proposta do PCP no sentido de ser confiado ao Estado o controlo da banca. Logo se levantaram uma ou mais vozes: não, isso não, não discutamos isso! E já uma outra voz esclarecera: Bruxelas não deixa, não gosta de bancos públicos, pelo que não há nada a fazer nesse sentido! Apetece usar, adaptando-a, uma frase também de uso popular: Bruxelas manda falir, não manda nacionalizar. E também ali se ouviu que, quanto a bancos para operarem em Portugal, o que o Banco Central Europeu mais deseja é que sejam bancos grandes e espanhóis, como se um seu discreto objectivo fosse o encaminhamento de depósitos para o banco em favor do qual reverteu a extinção do Banif. Registemos que já perto do final do programa o prof. Marco Capitão Ferreira explicou o que muitos de nós já entendêramos ou havíamos intuído: que a queda do preço do petróleo é uma arma de guerra económico-financeira disparada contra a Rússia e o Irão (a que poderá juntar-se a Venezuela). Mas essa já era uma outra estória. E o programa findou com decerto muitos cidadãos a repetirem para si próprios uma pergunta angustiada: onde esconderem os seus dinheiros, muitos ou poucos, do alto risco que o «Prós e Contras» quase anunciava e pelo seu próprio título ampliava?